4 de abril de 2009

DICA DE MÚSICA

Hoje, nesta manhã ardente de sol e melancolia, acordei ouvindo esses versos de Herbert Viana. A ternura que senti foi tanta que decidi dividir com vocês um pouco do que este poema me transmitiu. Pra quem não conhece a melodia eu recomendo.

VAMOS VIVER

Vamos consertar o mundo
Vamos começar lavando os pratos
Nos ajudar uns aos outros
Me deixe amarrar os seus sapatos
Vamos acabar com a dor
E arrumar os discos numa prateleira
Vamos viver só de amor
Que o aluguel venceu na terça-feira
O sonho agora é real
E a chuva cai por uma fresta no telhado
Por onde passa o sol
Hoje é dia de supermercado
Vamos viver só de amor
E não ter que pensar, pensar
No que está faltando, no que sobra
Nunca mais ter lembrar, lembrar
De por travas e trancas nas portas.

(HERBERT VIANA)

3 de abril de 2009

POETA NUNCA MAIS

Não busco noites de autógrafos,
Cargos em gabinetes,
Nem intelectualismos robóticos.
A destruição é real, não é teórica.
A ilusão do dinheiro, do natal de luz,
Da gana pela luxúria, não é virtual.
Portanto, podem me chamar de radical,
Sectário, terrorista, pois sei muito bem
Que o terrorismo está no canguçu
Que em nome de um cargo,
De míseros trocados,
Torna-se turvo e tosco social...
Pior... Faz da vida a própria negação do viver.
O que eu sou é cúmplice do guerrilheiro,
Amigo do socialista,
Atento ao ato revolucionário sem rosas.
(mas com roseiras de espinhos épicos)
Não sou revoltado,
Pois amo a possibilidade
De acabar com o caos,
Com a barbárie que reina,
(não por acaso)
Em plena pós-modernidade.
Não quero praça de recreação
Quero ação,
Não sou um chip,
Sou reação.
Vamos. Digam que não faço poemas.
Não faço mesmo.
Como posso fazer poesias enquanto o holocausto
Da miséria castiga o Nordeste,
Seja na América ou na África?
A poesia dos indolentes pode esperar...
Os ossos dos inocentes não!
No mais, a poesia faz parte da vida, enquanto a luta
É o que nos mantém vivos.
Pode parecer plágio da sociedade dos poetas mortos,
Que seja!
Mas é um plágio urgente,
Lúcido de resistência,
De quem sabe de que lado está e o que combate.
Inventem, reinventem novos títulos:
Arte do beco,
Arte panfletária,
Poesia social.
Seus rótulos não mais me afetam,
Pois aprendi com os berros ensangüentados da ternura
Que o poder popular não passa pela caneta do poeta,
Mas, pelo calo quente dos que amam a humanidade,
Muitas vezes sem ter direito a ela.
Portanto, nego e renego:
Eu não sou Hilda Hilst,
Não quero ser Fernando Pessoa,
Nem tão pouco seus heterônimos,
Acabem com essa história de poetas...
Morte a Cecília, Bandeira, Thiago,
Basta! Não quero saber de Jorge Luis Borges,
De Victor Hugo ou do Poeta dos escravos,
Estou farto de Pablo Neruda, Araripe Coutinho e Brecht.
Eu quero a revolução libertária,
O sonho sem destinatário,
E a vida que se interessa pela luta,
Pelo canto cru do povo que mesmo sufocado não se sufoca.
Viva o tecer incólume dos que gritam.

(Razek Seravhat)

2 de abril de 2009

DESATANDO O NÓ

Nasceu com a mãe na zona
E o pai no xilindró
Aquele menino viveu desatando nó

Quando ele nasceu
Não disseram que era assim
A lei do mais esperto
Cada um pra si
E ter que dar seu voto
A quem não sabe dividir
Trabalhar feito doido
E o salário daqui
Não dá pra criar
Os cinco barrigudim
Vive dando murro em prego
Pra ser um homem de fato
Se emprestam não lhe pagam
Vive pagando o pato
Tá cheio de malandro
É um ninho de rato
Os mais bobo troca meia
Sem tirar o sapato
Cochilou cachimbo cai
Escorregou fica de quatro
É um cabaré de cego
Dentro de um balaio de gato


Tem que ter cara e coragem
Pra tentar ganhar no grito
Tem gente vendendo a mãe
Tem gente ficando rico
Será o Mercosul
Ou será o benedito?
Quanto mais a moda é feia
Mais o povo acha bonito
Escutador de novela
Promovido a pinico
Os desonesto dentro
E os honesto de fora
Quem trafica enrica
E o justo na tora
No capitalismo
Quem tem água nos olhos
Quando vai no enterro
Se não lhe pagar não chora
Chora se não tiver
Dinheiro vivo em dólar
Chora pra quem morreu
Se lhe pagarem na hora

Olha o cidadão no mundo
No mundo ninguém tá só
Vida de quem tá no mundo
É viver desatando nó
Olhe o nó na madeira
A mentira é um nó
Quem dá nó em goteira
Amarra a sombra com cipó

( Juraildes da Cruz - cantor e compositor - nascido no dia 23 de novembro de 1954 em Aurora do Norte, hoje estado do Tocantins. Seu estilo é extremamente influenciado pelas cantigas de roda, folias de reis e por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.)

1 de abril de 2009

VIDA MARVADA

Corre um boato aqui donde eu moro
Que as mágoa que eu choro são mal ponteadas
Que no capim mascado do meu boi
A baba sempre foi santa e purificada
Diz que eu rumino desde menininho
Fraco e mirradinho a ração da estrada
Vou mastigando o mundo e ruminando
E assim vou tocando essa vida marvada

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
É que a viola fala alto no meu peito, mano
E toda mágoa é um mistério fora desse plano
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pruma visitinha
Que no verso e no reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me no cateretê

Tem um ditado dito como certo
Que cavalo esperto não espanta a boiada
E quem refuga o mundo resmungando
Passará berrando essa vida marvada
Cumpadi meu que inveieceu cantando
Diz que ruminando dá pra ser feliz
Por isso eu vagueio ponteando
E assim procurando minha flor-de-lis

(Rolando Boldrin)